Via-sacra em relevo
- pascom pscastro
- 3 de ago. de 2023
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As quatorze estações da via-sacra são relevos em gesso e concreto criativo, com acabamento em tintas metálicas e goma-laca. O formato básico é ogival, apontando para o céu – forma muito utilizada em igrejas desde a Idade Média, por sugerir um olhar para o céu.
As estações foram modeladas de modo artesanal e, portanto, apresentam algumas irregularidades naturais desse modo de produção que torna cada peça única.
A composição não segue o modo tradicional, pois as cenas não aparecem inteiras como se fosse uma cena de teatro, mas em recortes, lembrando os planos e enquadramentos da linguagem fotográfica e cinematográfica atual. A linguagem cinematográfica é mais contemporânea e as pessoas atualmente já estão acostumadas com esse tipo de cena, que permite que cada olhar dê continuidade ao acontecimento retratado. Esse tipo de enquadramento nos lembra que os mistérios da dolorosa Paixão de Nosso Senhor vão muito além do nosso entendimento e que a cada meditação mergulhamos um pouco mais nesse mistério.
Na Primeira Estação, Jesus é condenado à morte, vemos uma grande coluna seguindo o estilo da antiguidade clássica, nos lembrando do contexto em que Jesus foi condenado. Essa coluna também faz referência a coluna em que Cristo foi atado e flagelado, tendo manchas do seu sangue derramado. A multidão está distante de Cristo, assim como seus corações não se aproximaram Dele para perceberem quem Ele realmente era.
Na Segunda Estação, Jesus toma a cruz sobre os ombros. Jesus se une a sua cruz com tanto amor, manchando-a com seu próprio sangue que ela parece ter sido flagelada com Ele. As pesquisas mais recentes mostram que Jesus carregou apenas um parte da cruz sobre os ombros, mas aqui a cruz é mostrada em seu formato normal e na vertical, simbolizando que Jesus a recebeu disposto a carrega-la com dedicação total. Seu rosto não é mostrado, assim como nas estações seguintes, pois Ele “era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto” (Is 53:3).
A Terceira Estação mostra a primeira queda de Jesus. Com os joelhos no chão, Cristo é ainda mais humilhado. Seu rosto fica oculto. O velho Adão que se escondeu de Deus após o pecado é associado ao Novo Adão, obediente a carregar a cruz para a salvação do homem. O destaque nessa cena é a mão de Cristo a tocar a cruz, a não desistir dela mesmo na queda. A cruz toma a posição diagonal, indicando a instabilidade da queda.
Jesus encontra sua mãe, é a Quarta Estação. Enquanto as pessoas viravam o rosto, a Mãe vai ao encontro do Filho.
Aquele amargo em seu coração quando perdeu seu menino no templo (Lc 2:41-52) agora torna-se ainda mais intenso, quando vê o templo do seu corpo sendo destruído (Jo 2:19). A espada de dor anunciada por Simeão está sendo transpassada em sua alma (Lc 2: 35). Mas ela não é tomada pelo desespero. É como se no piscar demorado dos olhos, Maria prende-se a respiração por um instante, pois a dor que sente em seu peito é tão forte que o respirar torna-se pesaroso. Seu peito cheio de amor e dor está em vermelho, assim como na Mãe do Perpétuo Socorro, que sempre nos socorre com seu amor em nossos momentos de dor. Nessa cena a cruz está na vertical, em pé, pois Mãe e Filho, mesmo em meio a esse momento tão doloroso, continuam firmes no amor, na fidelidade e obediência a Deus.
Chegando a Quinta Estação é como se a cruz marcasse a imagem em quatro partes. Cristo, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, lado a lado com o Cireneu. Essa cena coloca em paralelo Jesus e o ser humano comum, lado a lado. A única coisa que está entre eles é a cruz, é ela que liga novamente Deus e o homem, céu e terra. Na divisão horizontal, tanto na parte inferior, que mostra uma dimensão mais terrena, quanto na parte superior, que faz referência ao céu, vemos Cristo e o Cireneu. Cristo não se coloca acima, mas deixa-se colocar lado a lado nessa situação humilhante. É Deus que desceu ao encontro do homem em sua dimensão terrena, mas também eleva a dignidade do homem por meio da salvação oferecida por Jesus.
Na Sexta Estação vemos o tecido de Verônica, sendo marcado pelo “verdadeiro ícone” do rosto de Cristo. Aqui o detalhe do rosto de Cristo marcado no tecido é o centro da cena. A Sagrada Face ainda está oculta pelo tecido, mas se revela através dele para aqueles que, como Verônica, enxergam a Jesus como o Cristo. A cruz está na diagonal mostrando a instabilidade do momento e ficando em forma de x, marcando o momento em que aquele tecido recebeu a Sagrada Face.
A Sétima Estação mostra a segunda queda de Jesus. O corpo de Cristo torna-se mais pesado e difícil de se levantar nessa cena, assim como deve ter sido difícil de se levantar após a segunda queda. A mão continua firme a segurar a cruz que agora está na horizontal. Se comparada a primeira queda, está girando, como o ponteiro de um relógio nos mostra a passagem do tempo e que a hora está se aproximando.
Na Oitava Estação Jesus e a Cruz estão em pé, mostrando a firmeza de Jesus para consolar as mulheres que choram “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, mas por vós mesmas e por vossos filhos” (Lc 23:28). Na Nona Estação é retratada a terceira queda de Jesus. Se na primeira queda a cruz estava na vertical, na segunda estação a cruz estava na horizontal, agora a cruz girou novamente e continua marcando que o tempo se cumpriu e é chegada a hora. Esta cena é representada em Plongée, palavra francesa utilizada no cinema que indica mergulho. Uma cena vista de cima para baixo, que nos convida a mergulhar nesse mistério de amor, de um Deus que se humilha e se coloca em baixo. Com o rosto no chão, a tocar o pó da terra.
Na Décima Estação Jesus é despido de suas vestes, que até aqui foram representadas pelo vermelho vinho ou escarlate, trazendo intensidade à figura de Cristo. As vestes de Cristo formam linhas na diagonal, sendo tiradas de seu corpo. Deus que fez roupas para vestir Adão da vergonha de seu pecado, agora tem o Filho despido, sendo humilhado e exposto para pagar por todos os pecados.
Seguindo para a Décima Primeira estação, os pregos que transpassam o corpo de Nosso Senhor são o foco principal dessa cena. Uma imagem também com uma vista aérea, com poucos elementos e as linhas da cruz alinhada, sugerindo mais silêncio e menos movimentação em torno da cena. O grito que se escuta agora é o de Jesus e as batidas nos pregos entrando em sua carne.
Décima Segunda Estação. Jesus Morre na Cruz. “Olharão para Aquele que transpassaram” (Jo 19:37 e Zc 12,10). Nesta estação enfim aparece o rosto de Cristo. Quantos não o reconheceram? Os soldados agora possuídos de temor exclamaram “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!” (Mt 27: 54). Assim como a serpente foi levantada no deserto por Moisés, agora o filho do homem foi levantado na Cruz (Jo 3:14). Esta cena está enquadrada em plano americano, do joelho para cima, trazendo uma centralidade para face de Cristo sem vida, sem perder a dimensão do acontecimento.
Agora Cristo é descido da cruz e colocado ao colo de sua mãe. A mãe do Perpétuo Socorro aparece como na outra cena, sem se desesperar, mas sentindo amargamente a dor em seu peito. O filho já sem vida na parte inferior da cena. Ao fundo somente a cruz pela qual Cristo passou. Lábios serrados de Maria, sugerindo o silêncio desse momento de dor.
Na última estação, a Décima Quarta, aparece a porta do túmulo e uma escada sugerindo a descida de Cristo a mansão dos mortos. O corpo envolto em tecidos, quase imperceptível, imóvel, sem ar, sem vida. Esta estação é praticamente vazia, como deve ter sido vazio esse momento com Cristo morto.
Todas as estações recebem fundos dourados, em referência ao ícone da Mãe do Perpétuo Socorro. O rosto de Cristo vivo não é mostrado, para causar incômodo, nos tirar do comodismo e nos fazer pensar, dando margem para completarmos nele o rosto do nosso próprio sofrimento e do sofrimento de nossos irmãos e irmãs. Os enquadramentos, focando nos detalhes de cada cena, mostram um olhar feminino, como o de Maria.
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